3# REPORTAGENS fevereiro 2014

     3#1 CAPA  1499  O BRASIL ANTES DE CABRAL
     3#2 CINCIA  EM BUSCA DAS SUPER CIVILIZAES
     3#3 HISTRIA  O INVENTOR KAMIKAZE 
     3#4 IDEIAS  O MUNDO EST MUITO COMPLEXO
     3#5 TECNOLOGIA  UM ROB NO SEU LUGAR
     3#6 TECNOLOGIA  A GRANDE BALEIA DE AO
     3#7 ECONOMIA  PIRMIDES  QUER PERDER DINHEIRO? PERGUNTE-ME COMO
     3#8 ZOOM  O CU DOS CACHORROS

3#1 CAPA  1499  O BRASIL ANTES DE CABRAL
Num paraso despovoado, onde tudo se colhia, doces brbaros viviam em paz e europeus eram inditos. Assim Pro Vaz de Caminha descreveu nossa terra em uma carta para seu rei quando esteve aqui com Pedro lvares Cabral em 1500. Mas o escrivo da certido de nascimento do Brasil ficou aqui uma semana, mal conheceu o recm-nascido. Hoje sabemos que nosso futuro territrio possua aldeias com milhares de ndios, agricultura intensiva, comrcio internacional e guerra permanente movida a canibalismo. Alm disso, j tinha recebido trs navegadores  dois espanhis, inclusive. Conhea um mundo que teve fim assim que foi descoberto.
TEXTO / Emiliano Urbim 

CIVILIZAO DA SELVA
Cientistas j encontraram runas de mega-aldeias. E muitos acreditam que floresta seja uma obra humana. 

     El Dorado era coisa do passado. Em 1541, uma expedio partiu de Quito rumo ao Leste para encontrar a Terra da Canela. Encontraram mais: a nascente de um rio imenso, contando em ambas as margens com aldeias gigantescas, habitadas por milhares de ndios. Nem todos eram pacficos, e a certo ponto os espanhis foram atacados por ndias ferozes. A jornada s terminou no Atlntico, na foz do rio que ficaria conhecido pelo nome grego que colou nas guerreiras: Amazonas. O relato da viagem foi considerado uma fantasia absurda. E assim permaneceu. 
     Talvez a histria das amazonas tenha sido mesmo lorota de conquistador. Mas a viso de margens do rio superpopulosas, muito mais do que so hoje, tem cada vez mais chance de ser verdade. Durante muito tempo vigorou a tese de que a selva equatorial simplesmente no tinha como comportar grandes ncleos populacionais. Mas as descobertas da antroploga americana Anna Roosevelt em Maraj fizeram todos reverem seus conceitos. Suas descobertas mostraram que a ilha pode ter abrigado um povo que, alm de fazer belas cermicas, construiu barrancos antienchentes  e, sobre eles, aldeias com milhares de habitantes. 
     Outro achado importante foi o do tambm americano Michael Heckenberger. Trabalhando com uma equipe multidisciplinar e ndios da regio do Xingu, ele identificou as runas de um assentamento permanente, Kuhikugu (ver box ao lado). "Os europeus nunca encontraram Kuhikugu e centros semelhantes porque estavam procurando pela coisa errada. Queriam achar cidades perdidas  e essas eram estruturas multicntricas, com redes de pequenos assentamentos, o que eu gosto de chamar de cidades-jardim", diz Heckenberger. Estruturas semelhantes a Kuhikugu foram encontradas por Eduardo Neves perto de Manaus e por Denise Schaan e Denise Gomes na selva da Bolvia. A populao de uma cidade-jardim poderia chegar a 50 mil pessoas  o equivalente s cidades-estado da Grcia.  
     Os cientistas vo mais longe: estudos mostram que boa parte da Amaznia pode ser obra do homem, no da Me Natureza. A distribuio de frutas e de um solo especfico, a terra preta, sugere a ao do homem. "Muitas reas do Xingu so 100% antropognicas, gigantescos pomares. E povos do local ainda dominam sofisticados sistemas de uso do solo", diz Heckenberger. "Meu objetivo  que esses sistemas possam ser usados para o desenvolvimento sustentvel  incluindo os indgenas." 
     H ainda um mistrio sobre o qual temos muito a aprender: os geoglifos, formaes geomtricas do tamanho de quadras esportivas distribudas entre o Acre e a Bolvia. Revelados pelo desmatamento e mais bem vistos do cu, eles desafiam especialistas. 
     O que une essas civilizaes perdidas  o colapso. Como milhes de pessoas teriam sido dizimadas? Nem plvora; nem ao: epidemias trazidas pelos brancos mataram mais do que qualquer arma. 

A CIDADE-JARDIM PERDIDA - O stio arqueolgico de Kuhikugu, no alto Xingu, d pistas sobre como pode ter sido a ocupao da Amaznia logo antes do descobrimento. Esse era um agrupamento cercado por um muro de galhos e um fosso profundo e largo, demonstrando a preocupao em resistir a ameaas externas. Desse centro partiam estradas com vrios metros de largura que o conectavam a outros centros  e imagens de satlite sugerem que todo o caminho entre as mega-aldeias era permeado de hortas e pomares para sustentar uma populao de milhares. A pesquisa ainda est em andamento, mas esses dados preliminares sugerem que a densidade populacional da Amaznia j foi muito maior. 

ANTES DO MERCOSUL
Estudos revelam uma rede de estradas que ligava nosso litoral ao Imprio Ina  e permitia escambos entre povos. 

     At hoje se supe que os ndios brasileiros ignoravam o escambo at receberem espelhos e miangas dos marinheiros de Cabral. Trocar o qu, se no produziam nada? E trocar com quem, se viviam isolados dos vizinhos?  um mito totalmente desmontado por pesquisam recentes, que provam que havia troca constante entre os povos do litoral e do serto. E mais: uma rede de caminhos fazia esses itens chegarem at o Imprio Inca no Peru. Vistos pela lgica da poca, os escambos da beira da praia estavam mais para um acordo comercial entre o Mercosul e a Unio Europeia. 
     E que comrcio era esse? Antroplogos franceses chegaram a uma estrutura bsica dessa rede de trocas. Os ndios do litoral tinham sal extrado do mar e conchas ornamentais, e volta e meia ainda sobrava mandioca. J o serto tinha suas commodities, como feijo e milho, e tambm um artigo de luxo: penas de aves grandes como ema e de tucano, para todo tipo de enfeite. Tudo isso era objeto de permuta com os incas, que em troca davam objetos de cobre, bronze, prata e ouro  nossos ndios praticamente no tinham acesso a metal. Esses contatos, que durante muito tempo tiveram ares de lenda, foram comprovados com vrios achados: em Cananeia (SP), por exemplo, foi encontrado um machado pr-colombiano feito com cobre dos Andes. 
     O principal ramal dessa malha viria amerndia era o Peabiru (provavelmente uma palavra tupi que significa "caminho de grama"). Esse caminho atravessava os atuais Estados de So Paulo e Paran, entrava Paraguai adentro e subia pela Cordilheira dos Andes (ver quadro na outra pgina). Era como se fosse uma rota da seda atravessando a Amrica do Sul, unindo economias e culturas diferentes  uma ao entre naes. "Existem testemunhos do incio do perodo colonial que revelam o interesse com que as tribos do litoral e do serto mantinham aberta essa ligao", diz Jorge Couto,  historiador portugus autor de A Construo do Brasil. "O interesse na troca de produtos era um denominador comum, razo suficiente para que cada grupo garantisse a segurana da circulao de homens e mercadorias nas suas reas de influncia. " verdade que os elementos de que dispomos sobre o Peabiru ainda so tnues, mas j so suficientes para dizer que ele existiu e funcionou de fato. 
     Os caminhos dos ndios se tornaram as trilhas dos descobridores, depois as rotas dos bandeirantes. Trechos originais ainda sobrevivem em matas no norte no Paran, mas muitos foram cobertos de asfalto e hoje so vias como as paulistanas Rebouas e Consolao.  um captulo ainda ignorado por historiadores  mas j explorado pela indstria do turismo, que vende pacotes de ecoturismo para quem quiser explorar a antiga trilha. 

O DESCOBRIDOR DO PEABIRU - Em 1524, o portugus Aleixo de Souza se juntou aos valentes da tribo carij e saiu em busca de fortuna  no havia achado nenhuma desde que naufragara alguns anos antes na futura ilha de Santa Catarina, onde hoje  Florianpolis. Ele havia ouvido falar de um caminho que levava at um reino repleto de ouro e prata. Trs mil quilmetros para o Oeste depois, ele chegou ao Imprio Inca. Chegou, roubou, fugiu e, na volta, acabou sendo atacado e morto por ndios paraguaios. Mas uma coisa ningum tira dele: o pioneirismo. Aleixo saqueou os incas nove anos antes dos espanhis. 

GUERRA DAS TRIBOS
Esquea o paraso terreno. Nossos ndios viviam em conflito  com direito a guerra santa, armas qumicas e banquetes antropofgicos. 

     Junto ao mar vivia uma tribo que levava uma vida mansa, sem preocupaes. At que um dia, sem que ningum esperasse, chegaram os conquistadores. Eles falavam uma lngua estranha, usavam armas melhores e no tiveram d dos derrotados: queimaram suas aldeias, mataram seus guerreiros e escravizaram mulheres e crianas. Quem conseguiu fugir teve de ir para bem longe da praia, para nunca mais voltar. Foi assim que, por volta do ano 1000, os tupis se tornaram os donos do litoral. 
     Muito antes dos portugueses, a vida dos ndios j no era fcil. As tribos viviam estado de guerra ininterrupta, endmica, como defende o socilogo Florestan Fernandes no clssico A Funo Social da Guerra na Sociedade Tupinamb. Por terra, por rios, por vingana, por esporte. At por motivos religiosos, como parece ter sido o caso dos tupis. 
     Os ancestrais dos tupis vinham de onde hoje  Rondnia, onde se diferenciaram da concorrncia graas  agricultura de coivara, baseada em queimadas peridicas  sim, ndios faziam queimadas. Segundo o antroplogo francs Pierre Clastres, os tupis acreditavam para valer no mito da Terra Sem Mal  um lugar frtil, sem doenas nem tragdias, e que, garantiam os espritos, ficava no Leste. A crena nessa terra prometida motivaria um xodo que durou sculos, sempre rumo ao Atlntico. Chegando l, expulsaram para o interior os antigos residentes  que receberam apelido de tapuias  em tupi, "selvagens". (Prova de que a histria  escrita pelos vencedores at quando eles no sabem escrever; hoje, os ex-tapuias so o tronco Macro-J.) 
     "Quando os tripulantes da armada de Cabral desembarcaram na Terra de Santa Cruz, os tupis e os guaranis efetuavam denodados esforos para completar a conquista do litoral", escreve Jorge Couto. "Naturalmente, ganhavam a disputa os grupos tribais mais coesos, numerosos e tecnologicamente mais apetrechados."  
     E bota apetrechado nisso.  distncia, usavam flechas  s vezes impregnadas de venenos vegetais e animais, s vezes incendirias, com tufos de algodo em chamas. Ao se aproximar de uma aldeia a ser invadida, metiam medo batendo os ps no cho e soprando instrumentos feitos com ossos de inimigos. Durante o cerco, apelavam para a guerra qumica: jogavam pimenta-da-terra na fogueira e faziam a nuvem txica chegar aos adversrios. No combate corpo a corpo, preferiam tacapes, ideais para trincar crnios. A aldeia era incendiada e tudo terminava em churrasco. Prato principal: prisioneiros. (Ver na pgina ao lado.) 
     Os portugueses souberam explorar essas rivalidades. Por uma vitria momentnea contra adversrios tradicionais, os ndios se aliavam aos invasores  sem se dar conta que se aproximar deles causaria sua derrota permanente. 

O GOSTO DOS OUTROS - O termo certo no seria canibalismo, mas antropofagia. A diferena  sutil, mas faz sentido: canibal  quem come carne humana por necessidade; antropfago  quem faz por gosto mesmo. Os ndios buscavam adquirir a valentia dos rivais. Havia todo um ritual que podia durar de dias a meses em que o prisioneiro era humilhado e homenageado, at que chegasse o dia em que seria servido para a tribo inteira  cada povo obedecia a uma diviso das partes entre homens e mulheres, velhos e jovens. O suicdio no seria uma opo? Nada disso: ser devorado era a prova de que era um guerreiro valente. 

NEM DEMNIOS, NEM ANJOS
Os ndios eram mais complexos do que a idealizao e o preconceito dos europeus permitiam ver. 

     No sculo 16, espalhou-se em Portugal a ideia de que a lngua dos ndios brasileiros carecia de trs letras: F, L e R  logo, no tinham como ter nem F, nem Lei, nem Rei. A teoria era meio surda  os ndios tinham os trs sons  e totalmente mope: as instituies s existem se nomeadas em portugus? Mas resume bem o que os portugueses pensavam dos ndios; almas a serem catequizadas, doutrinadas e governadas. Enxergando sempre por esse prisma, os europeus no quiseram ou no puderam ver certas nuances sobre seus novos sditos. Nuances reveladas por novas pesquisas arqueolgicas, e que ajudam a entender como as tribos do litoral viveram seus ltimos dias de ndios. 
     Os portugueses no compreendiam direito os papis dos homens e das mulheres. Eles caavam, mas, diferente dos vares lusos, ignoravam a lavoura. Elas cuidavam das tarefas domsticas mas, ao contrrio das carolas catlicas, no tinham vida espiritual  uma tarefa masculina. E no havia mesmo reis; o poder era fragmentado, cada chefe mandava na sua aldeia e olhe l  s vezes, como no estilo britnico, reinava mas no governava. 
     A monogamia predominava, mas as separaes, frequentes e numerosas, confundiam os conquistadores. E nada de famlias numerosas: as mulheres paravam nos dois filhos. Era o mximo que dava para alimentar sem aperto e o mximo que se podia carregar em caso de mudana. A perfeio fsica dos ndios, que tanto chamou a ateno dos europeus, pode ser resultado de eugenia  como os espartanos, eles provavelmente matavam os bebs que consideravam deficientes. 
     Muita cincia passou despercebida. S agora podemos dizer com certeza que os ndios domesticavam plantas, enriqueciam o solo com adubo, realizavam pesca por envenenamento com elevado grau de eficcia. Tendo profundo conhecimento das plantas que os rodeavam, tinham remdios eficazes para quase todos os males  cujas propriedades ainda esto sendo descobertas em laboratrios. Sem falar em uma das maiores invenes de todos os tempos: a rede de dormir. 
     At que a rede e o mundo caram. Como disse em uma entrevista recente  revista Piau o antroplogo Eduardo Viveiros de Castro, "o mundo deles acabou em 1500. Se formos falar do fim do mundo, pergunte aos ndios como , porque eles sabem. Eles viveram isso. A Amrica acabou". 
     Enquanto os portugueses escreviam a certido de nascimento da nova terra, os timbiras faziam um atestado de bito para o seu mundo. Na lenda de Auk, um menino com poderes sobrenaturais  morto em uma fogueira. Ele ressuscita como o primeiro branco, e pede que a tribo escolha entre a espingarda e o arco. A espingarda traria a civilizao; com medo, os ndios escolhem o arco, e permanecem ndios. Auk at hoje chora de pena dos timbiras. 

TRS ANTES DE CABRAL - Pedro lvares Cabral  o descobridor oficial do Brasil  veio oficialmente, tomou posse, rezou missa e fez com que o mundo soubesse. Mas no  o descobridor cronolgico: antes dele, pelo menos trs outros navegadores estiveram em nossas atuais costas  um portugus seguido de dois espanhis. O primeiro foi Duarte Pacheco, ainda em 1498. Tudo indica que o experiente explorador esteve em Belm e foi subindo at a futura Caracas. Sua misso talvez fosse saber se havia terra que valesse uma esquadra maior  a de Cabral. O segundo veio em janeiro de 1500: Vicente Pinzn, que havia descoberto a Amrica junto com Colombo. O espanhol foi o primeiro a cruzar a linha do Equador e, sem estrela polar para se guiar, bateu no Nordeste e foi subindo at a Flrida. Logo atrs dele, em fevereiro, chegou seu primo Diego de Lepe. O curioso  que, apesar de nomear vrias regies, no tomaram posse: sabiam muito bem que estavam em territrio que era de Portugal pelo Tratado de Tordesilhas. 

EXPEDIES:
Duarte Pacheco  novembro de 1498
Vicente Pinzn  26 de janeiro de 1500
Diego de Lepe  Fevereiro de 1500
Pedro lvares Cabral  22 de abril de 1500


3#2 CINCIA  EM BUSCA DAS SUPER CIVILIZAES
O melhor caador de planetas do Sistema Solar est em busca de civilizaes milhares de sculos mais avanadas que a nossa. E ele tem a frmula para encontr-las: vasculhar o cu  procura de megaestruturas, como esta aqui.
REPORTAGEM / Salvador fogueira
EDIO / Alexandre Versignassi

     Depois de descobrir mais de uma centena de mundos aliengenas ao redor de outras estrelas, o astrnomo americano Geoff Marcy decidiu que era hora de apostar na busca por civilizaes extraterrestres. Supercivilizaes, na verdade  com tecnologia incomensuravelmente superior  nossa. 
     A hiptese  a seguinte: supercivilizaes precisam de megafontes de energia para alimentar seus hiperequipamentos, ultrafamintos por eletricidade  est pensando que teletransporte, viagens no tempo e outras supertecnologias so econmicas? No sabemos, mas provavelmente no. A regra de que no existe almoo grtis fatalmente vale para o Cosmos todo: quanto maior o desenvolvimento, maior a demanda por energia. Por exemplo: qualquer megacivilizao que se preze j se expandiu para alm de seu planeta natal e colonizou outros mundos, pelo menos dentro do seu prprio Sistema Solar. A que os gastos com energia vo mesmo para a estratosfera  se escoar soja do Mato Grosso j demanda um oceano de diesel, imagina transportar matria-prima entre um planeta e outro. 
     Desnecessrio dizer que diesel no resolve o problema num caso desses (nem no nosso, mas essa  outra histria). O jeito mais racional de obter energia nessa escala absurda, imaginam os cientistas terrqueos,  apelar para o Sol. Ou seja, explorar ao mximo a radiao emitida pela estrela-me do planeta em questo. Mas no, painis solares como os conhecemos no dariam nem para o comeo. Os nossos amigos de uma hipercivilizao com comrcio interplanetrio precisariam de painis grandes. Grandes mesmo. Mastodnticos, com centenas de milhes de quilmetros de extenso. A coisa formaria anis em torno da estrela, como esta mandala aqui ao lado. 
     O conceito  conhecido como Esfera de Dyson, assim batizada em homenagem ao fsico e matemtico britnico que primeiro apresentou o conceito, Freeman Dyson, hoje com 90 anos. Ele partiu do pressuposto de que todas as civilizaes tecnolgicas constantemente aumentam sua demanda por energia. Pensando em termos terrqueos, se essa tendncia (que existe hoje em nossa prpria civilizao) continuar por tempo suficiente, chegar o dia em que precisaremos de quase 100% da energia emitida pelo Sol para mantermos nossas mquinas funcionando. 
     Quando essa hora chegar, a melhor soluo seria construir essas instalaes espaciais cosmofaranicas em torno de nossa estrela  daria para transmitir a energia via micro-ondas, sem fio, direto do espao para os planetas em que houver colnias. Dyson apresentou a noo num artigo publicado em 1960 na revista Science, mas a inspirao original veio da fico cientfica, que j na dcada de 1930 falava do assunto. 
     E agora chegamos ao ponto que interessa. Se os escritores de fico cientfica e Freeman Dyson estiverem certos, e algum l em cima j tiver construdo uma superestrutura dessas, no seria to difcil detectar a presena de uma delas hoje mesmo, usando os melhores telescpios disponveis aqui na Terra. 
 exatamente isso que Geoff Marcy, da Universidade da Califrnia, quer procurar. "Estamos buscando estrelas que fiquem completamente escuras por um tempo e depois brilhem de novo", diz o americano. "Essa mudana drstica no brilho aconteceria se uma civilizao cobrisse sua estrela com anis para coletar sua luz. Esperamos detectar essas esferas Dyson ao procurar por estrelas que mudem de brilho dramaticamente." 
     Loucura? Sim. S que Marcy pode se dar ao luxo de propor coisas nessa linha. Ele construiu uma reputao de cientista de primeira grandeza a partir da dcada de 1990, quando comeou a descobrir os primeiros planetas fora do Sistema Solar. Por pouco, ele no foi o astrnomo que encontrou o primeiro mundo extrassolar, descoberto pelo grupo rival de Michel Mayor, do Observatrio de Genebra, em 1995. 
     Marcy, contudo, foi responsvel pela descoberta do primeiro sistema com mltiplos planetas e j soma mais de 110 planetas descobertos. No momento, ele trabalha na equipe do satlite Kepler, da Nasa, que j encontrou milhares de planetas-candidatos durante sua misso de observao de apenas uma pequena parte do cu. E a proposta de procurar sinais de civilizaes avanadas est sendo levada a srio. Marcy recebeu um financiamento de US$ 200 mil, que esto sendo pagos entre 2013 e 2014, para procurar por elas justamente nas estrelas observadas pelo Kepler. So cerca de 160 mil estrelas monitoradas constantemente pelo telescpio orbital, mas Marcy deve se concentrar em apenas mil delas, as que paream mais amigveis  existncia de planetas potencialmente habitveis (ou seja: estrelas mdias, como o Sol, nem muito ofuscantes, nem muito apagadas). 
     "O Kepler j descobriu mais de 2 mil novos mundos em torno de outras estrelas, a maioria deles menor que duas vezes o tamanho da Terra, e muitos que provavelmente tm gua [o ingrediente mais fundamental para a vida]", diz Marcy. "Essa enxurrada de planetas quase do tamanho terrestre oferece a primeira oportunidade para que ns, humanos, procuremos outras espcies inteligentes."

NOVA TENTATIVA
     No  a primeira vez que astrnomos tentam encontrar sinais de Esferas Dyson. Um esforo anterior, conduzido por Richard Carrigan, pesquisador do Fermilab (instituio americana de pesquisa de fsica de partculas), usou dados do satlite IRAS para tentar encontrar sinais de radiao infravermelha. Essa era a radiao esperada caso houvesse no anis, mas uma esfera completamente fechada, que envelopasse um sistema solar inteiro  e no deixasse escapar luz visvel, s calor, na forma de radiao infravermelha. 
     Os resultados foram, bem, inconclusivos. "Obtivemos 17 candidatos ambguos dos quais quatro eram ligeiramente interessantes, mas ainda questionveis", afirma Carrigan. 
     De posse dos dados do Kepler, Marcy acredita que pode fazer melhor. Alm disso, ele pretende usar tempo do Observatrio Keck, no Hava, para coletar espectros de luz de seus mil alvos, na esperana de detectar um outro sinal de vida inteligente  raios laser.  a ltima moda na busca por transmisses extraterrestres. At hoje, a maioria das pesquisas se deu em frequncias de rdio, imaginando que as civilizaes os usariam para tentar se comunicar conosco.  o que o Seti faz desde a dcada de 1960. O programa de Busca por Inteligncia Extraterrestre (Seti, na sigla em ingls) aponta suas mega-antenas, os radiotelescpios, para alguma regio do cu. E tenta captar qualquer coisa que parea ter sido transmitida por alguma forma de vida na tentativa de se comunicar com a gente, tipo sinais de rdio com frequncia que se repetem, que paream um cdigo morse interplanetrio. 
     Mas e se os ETs estiverem usando pulsos de laser, em vez de ondas de rdio? Essa  a segunda grande aposta de Marcy. Ele aponta que os militares americanos j esto usando cada vez mais laser, em vez de rdio, para se comunicar com suas espaonaves. "Lasers so mais eficientes do ponto de vista energtico, e eles permitem que dois grupos se comuniquem com mais privacidade", diz o astrnomo. 
     Isso acontece porque o laser, por ser uma forma de luz "organizada" (os fsicos chamam de "coerente"), precisa ser apontado na direo do receptor do sinal, pois "vaza" muito pouco em outras direes. J as ondas de rdio se propagam mais livremente para todo lado. 
     Bem, mas qual  a chance de uma civilizao distante estar apontando seu laserpointer para ns? Marcy na verdade nem est contando com isso. Ele aposta que os ETs estejam usando lasers para se comunicarem entre si, com suas espaonaves, colnias etc. Se tivermos sorte, uma dessas transmisses pode, por coincidncia, ser disparada na nossa direo. Por enquanto, haver limitaes na busca. "Estamos desenvolvendo novas tcnicas, com novos detectores e telescpios, para buscar sinais aliengenas no infravermelho e na luz visvel. Vamos torcer para que eles estejam transmitindo nessas frequncias!". A busca nas outras frequncias (ultra-violeta e raios-x), mais complexa, fica para uma prxima. 
     At agora, houve um sinal esquisito de laser detectado em 2009 na Austrlia, mas no tiveram como confirmar sua suposta natureza artificial, porque ela no se repetiu  a exemplo do que j tinha acontecido com as buscas por sinais de rdio. Em 1977, um radiossinal com cara de artificial, formando padres aparentemente repetidos, foi detectado em Ohio, levando o operador do radiotelescpio a anotar "Uau!" em seus relatrios. Mas o fenmeno nunca mais aconteceu de novo. 
     Bom, a verdade  que, se somos ruins para prever o futuro da humanidade, calcule o desafio de especular sobre o que esto fazendo civilizaes aliengenas bem mais avanadas do que ns. Marcy se d conta do tamanho do problema. "Talvez eles no transmitam ondas de rdio ou qualquer outro comprimento de onda de luz", afirma. "Mas no podemos buscar tipos de comunicao que no fomos capazes de imaginar. Precisamos empurrar nosso potencial para tentar fazer descobertas, sem saber de antemo se h alguma chance de sucesso." Pois . No fim, estamos limitados pela nossa imaginao. Ainda bem que, pelo jeito, ela tem combustvel de sobra.  


3#3 HISTRIA  O INVENTOR KAMIKAZE
Jiro Horikoshi criou um avio to incrvel que fez o Japo acreditar que podia sair vencedor da Segunda Guerra. Entenda a importncia desse engenheiro genial  cuja vida virou um filme indicado ao Oscar.
REPORTAGEM / Roberto Maxwell, de Tquio
EDIO / Emiliano Urbim

     De onde no se esperava nada, veio o zero. Um caa leve, com alto poder de manobra e autonomia de voo, ele foi a maior surpresa do ataque japons a Pearl Harbor em 1941. Os americanos, seus aliados e at seus inimigos ficaram bestas: como o Japo  isolado e atrasado  tinha conseguido fazer o melhor avio da Segunda Guerra? Ningum ignorava que o Imprio do Sol Nascente era uma potncia ascendente: comeou o sculo 20 anexando Coreia e Taiwan, e agora atacava a China continental. O que poucos sabiam era que o Japo tinha tecnologia para produzir algo to avanado. 
     Na verdade, o Mitsubishi A6M Zero era um ponto fora da curva. Assim como seu criador, Jiro Horikoshi. Pequenino, de rosto afilado e sempre de culos, o engenheiro era conhecido pela paixo por avies e pela inovao obsessiva. A maior bilheteria do Japo em 2013 foi uma animao inspirada na vida de Horikoshi: Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki, indicado ao Oscar  que o diretor venceu em 2002 com A Viagem de Chihiro. Alm de sucesso, o filme criou polmica: um inventor de avies de guerra ter alma de artista? 
     Jiro nasceu em 1903, numa cidadezinha a 120 quilmetros de Tquio, quando o Imprio do Japo estava em plena expanso pelo Pacfico. O menino sonhava em ser um s da aviao, mas um severo problema de viso redirecionou o sonho: no queria mais pilotar, mas criar avies. 
     Ele sempre foi um aluno obstinado: passava horas estudando, devorando livros e revistas, inclusive em idiomas estrangeiros. "Eu mergulhava em revistas que vinham repletas de histrias das batalhas areas e dos avies da grande guerra da Europa", escreveu Jiro Horikoshi em sua autobiografia. (Sintomaticamente, o ttulo do  livro desvia o foco do criador para a criao: Zero Fighter  o registro de seu nascimento e glria. No se sabe quase nada sobre sua vida pessoal.) 
     Depois da formatura, em 1927, Horikoshi entrou no brao da Mitsubishi no setor de aviao. As empresas japonesas disputavam a tapa os pedidos da Aeronutica, principal cliente da poca. Dois anos aps a admisso, foi enviado para conhecer concorrentes pelo mundo. Nos EUA, decifrou os segredos da linha de montagem. Na Alemanha, foi estagirio no projeto de um cargueiro  que acabou servindo de base para um bombardeiro no Japo. Enquanto os chefes celebravam a transferncia tecnolgica, Horikoshi comemorava outro discreto contrabando. Em sua bagagem estava o elemento fundamental dos avies do futuro. 

RUMO AO ZERO 
     Duralumnio. Parece nome de marca de persiana, mas era uma liga metlica levssima e hiperresistente, da qual poucos tinham ouvido falar em 1930, quando Horikoshi trouxe o material para o Japo. Numa poca em que avies ainda tinham peas de madeira e compensado, e sua fuselagem era coberta de tecido, fazer um avio todo de metal era o sonho de Horikoshi. Com o duralumnio, esse sonho se tornava possvel. 
     A primeira parte desse sonho  uma aeronave que, na opinio dos especialistas,  aquela que melhor define o seu criador. O Mitsubishi A5M trazia as marcas do que ficou conhecido como "Design Horikoshi": a fuselagem como uma pea nica, do nariz at a cauda, que vai se afunilando; as asas dianteiras que surgem com a perfeio de uma pluma; o estabilizador vertical e a cauda que evoluem a partir de uma linha central. Foi um sucesso. 
     At que surgiu uma nova encomenda; um avio ultraleve com artilharia pesada. Numa sociedade em que experincia  o maior carto de visitas,  surpreendente que Jiro, com 37 anos, tenha sido escolhido para tocar o projeto. Ou nem tanto: "Os militares queriam algum que pensasse diferente, que pudesse produzir algo completamente novo", conta Shinji Suzuki, historiador do Departamento de Aeronutica e Astronutica do Japo. Horikoshi trabalhou incansavelmente no projeto durante dois anos. Virava noites na prancheta, ficou doente, de cama. At que chegou o primeiro voo, em 1939. A nova mquina cumpria todos os requisitos: leveza, agilidade, alcance, poder. Era feita de zicral, uma evoluo do duralumnio. E ganhou o nome de Mitsubishi A6M Zero, ou simplesmente Zero, referncia ao ano de lanamento, 1940  ou 2600 na contagem da Era Imperial. 
     A chegada do Zero garantiu ao Japo a conquista da China. "Com duas metralhadoras e dois canhes de 20 mm, os Zeros estavam mais bem armados que qualquer outro avio que os enfrentasse", descreve Masatake Okumiya, ex-piloto da Marulha Imperial. Sua velocidade de 480 km/h permitia alcanar qualquer aeronave inimiga. Em dois meses e 22 ataques, o Japo venceu o conflito sem que nenhum dos 153 Zeros usados tivesse sido abatido.   

SOBERBA E LEGADO 
     As vitrias arrasadoras dos Zeros encorajaram as lideranas da Marinha Imperial Japonesa a dar um passo mais arriscado. "Nossa inteligncia garantia que, na batalha, o Zero seria equivalente a cinco caas inimigos", diz Okumiya. Foi com essa confiana que os japoneses escalaram a aeronave para liderar o famoso ataque a Pearl Harbor, que jogou os EUA na guerra. 
     Hoje h consenso de que os japoneses no esperavam vencer os americanos. A ideia era atacar primeiro para depois buscar uma sada diplomtica. S que a diplomacia nunca veio. "Fomos convencidos de que o conflito seria encerrado antes que a situao ficasse catastrfica para o Japo", registrou Horikoshi em seu dirio. "Agora, desprovidos de qualquer movimento firme do governo, estamos sendo conduzidos para a runa. O Japo est sendo destrudo." Em 1945, os nazistas foram derrotados na Europa e os Estados Unidos se voltaram para o Pacfico  com novos e modernos avies. 
     Quando as bombas atmicas caram sobre Hiroshima e Nagazaki, a bela criao de Horikoshi j no cruzava os ares. Os ltimos Zeros foram usados como munio nas misses suicidas dos tokkotai, conhecidos no Ocidente como kamikazes. 
     A derrota acabou com a indstria aeronutica japonesa. Mas seus avanos foram parar em carros e at trens-bala. Numa poca em que o Japo ainda engatinhava na tecnologia, a obsesso por inovao de Horikoshi, falecido em 1982, marcou. Se ele criou o maior smbolo de fora do Japo Imperial, por outro lado, nunca foi entusiasta da guerra. Se depender da animao Vidas ao Vento, Jiro vai ser lembrado como um homem que, antes de qualquer coisa, s queria fazer um belo avio.  

VIDAS AO VENTO
Animao indicada ao Oscar gerou polmica no Japo.
Vidas ao Vento, cinebiografia de Jiro Horikoshi, gerou polmica. A animao foi atacada por historiadores (que criticaram a inveno de uma esposa para Jiro) e nacionalistas. As crticas de Miyazaki  guerra colocaram o diretor e seu novo filme sob o fogo de uma pequena mas barulhenta claque a favor da remilitarizao do Japo. Curiosamente, na China e na Coreia do Sul, detratores acusam o diretor de fazer um filme de guerra. No meio do fogo cruzado, Miyazaki preferiu no responder s crticas. Ele s anunciou que, infelizmente, esse deve ser seu ltimo filme. 


3#4 IDEIAS  O MUNDO EST MUITO COMPLEXO
APOSTO OUE VOC TAMBM NOTOU: VIVER EST COMPLICADO.  MUITA SENHA, MUITA INFORMAO, MUITO DIO, MUITA OPO, MUITA NOVIDADE, MUITO PROBLEMA QUE PARECE SER INSOLVEL. POR QU? E TEM CURA?
TEXTO Denis R. Burgierman
     
     Tenho quase certeza de que voc sabe do que eu estou falando. Uma certa angstia, uma sensao de que tudo est escorregando do controle. E tambm uma pitada de desnimo com a ordem geral do mundo, como se no adiantasse fazer nada, porque qualquer esforo vai se perder numa srie de consequncias inesperadas, e pode at acabar tendo efeito contrrio ao pretendido. Caceta, de onde vem isso? 
     A vida est complicada demais.  muita senha para decorar, muita lei para seguir, muita conta para pagar.  muito trnsito. Muito carro na rua, disputando espao com caminho de lixo, e  tambm muito lixo na calada  espera de algum que o recolha.  muito risco, muito crime, muita insegurana. 
 muito partido poltico, e nenhum deles parece minimamente interessado nas coisas que so importantes para voc.  muita opo de trabalho, mais do que em qualquer momento da histria, e ao mesmo tempo  muito difcil encontrar um trabalho que faa sentido.  muita doena estranha de que eu nunca antes tinha ouvido falar, e muita gente morrendo disso.  muita indstria tradicional, de ares eternos, desmoronando de um segundo para o outro.  muita gente saindo da escola sem saber ler nem fazer conta.  muito problema, e cada um parece impossvel de resolver. Estou surtando? S eu estou sentindo isso? 

 COMPLEXO, MANO 
     Por outro lado, o mundo est cheio de possibilidades, inclusive a de acessar informao ao toque de um dedo. Dei um  google, encontrei um texto chamado Complexity Rising ("O aumento da complexidade"), do fsico americano Yaneer Bar-Yam, fundador do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra. 
     Arr, est l: o mundo est mesmo ficando mais complexo, no  paranoia minha. O texto explica o que  complexidade:  o nmero de coisas conectadas umas s outras. Quanto mais partes um sistema tem, e quanto mais ligaes existem entre essas partes, mais complexo ele . Um exemplo de coisa complexa  o recheio do seu crnio: 86 bilhes de neurnios, cada um deles conectado a vrios outros, um emaranhado quase infinito de possveis caminhos a percorrer. 
     Segundo Bar-Yam, a sociedade humana vem constantemente aumentando de complexidade h milnios. No incio, quando vov era caador-coletor e dava rolezinho na savana africana, vivamos em grupos de no mximo umas dezenas de pessoas, e cada grupo era basicamente isolado dos outros. A complexidade da sociedade era mnima. Diante disso, nossas estruturas de controle eram bem simples. No geral, um chefe mandando e todo o resto da turma obedecendo  um general e os soldados, um chefe e a ral. 
     Mas a moleza no durou. Primeiro surgiram imprios vastos (Egito, Mesopotmia, China, ndia) com maior diversidade de necessidades e papis sociais (escribas, escultores, cozinheiros, prostitutas). A complexidade foi aumentando. 
     Diante disso, j no funcionava mais o sistema simples de controle direto. Segundo Bar-Yam, existe uma lei universal e sagrada dos sistemas complexos: "a complexidade de um sistema realizando uma tarefa deve ser to grande quanto a complexidade da tarefa". Como um fara  menos complexo do que a sociedade egpcia, no seria possvel para o fara regular e controlar todos os aspectos dessa sociedade. Por isso, foram surgindo hierarquias intermedirias: o mestre de obras para organizar a peozada, o capito de navio para mandar na marujada, a madame para cuidar das garotas. 
     E a humanidade seguiu ficando cada vez mais complexa, mais intrincada, mais especializada. E, para dar conta disso, as hierarquias foram ganhando mais e mais nveis  diretor, vice-diretor, gerente, subgerente, auxiliar, terceiro-auxiliar do subgerente do vice-diretor. S assim para cada chefe lidar com a complexidade do que est abaixo dele. At chegar a hoje, quando vivemos na sociedade mais complexa de todos os tempos. S que a as hierarquias pararam de funcionar  colapsaram. O mundo ficou to complexo que ficou impossvel para um chefe dominar a complexidade abaixo dele. 
     Quando Bar-Yam tornou-se especialista em sistemas complexos, na dcada de 1980, esse no era um ramo glamouroso da cincia. Os fsicos preferiam reas ultraespecializadas e achavam o estudo de grandes sistemas uma coisa meio esotrica. Ele insistiu e sua dedicao valeu a pena. No mundo complexo de hoje, Bar-Yam e seu instituto esto atraindo um monte de clientes importantes. 
     O exrcito americano procurou-o para entender como lutar contra inimigos ligados em rede, misturados  populao civil em cidades labirnticas  situao bem mais complexa do que as guerras de antigamente. Bar-Yam tambm tem trabalhado como consultor na reforma dos  sistemas de sade e educao dos Estados Unidos, na estratgia do Banco Mundial para ajuda humanitria e na concepo de grandes projetos de engenharia. No est faltando trabalho. 
     Parecia o sujeito certo para resolver meu problema. Escrevi um e-mail para ele, perguntando se h "algumas regras simples que ensinem a lidar com complexidade?" (editores de revistas adoram frmulas simples). Bar-Yam j chegou detonando: "no h regras simples para lidar com o que  complexo". Mas, se eu quisesse aprender os princpios gerais da gesto da complexidade, eu poderia comprar o livro dele, Making Things Work ("Fazendo as coisas funcionarem", sem verso em portugus). 
     Comprei. O livro  timo. A tese central  que todo sistema complexo tem duas caractersticas: a escala e a complexidade. Para fazer um sistema complexo funcionar,  preciso ter uma estratgia para a escala e outra para a complexidade. 
     Exemplo: o corpo humano tem dois sistemas de proteo, um para escala, outro para complexidade. O sistema neuromuscular (crebro comandando nervos que acionam msculos que movem ossos) serve para escala, enquanto o sistema imunolgico (glbulos brancos independentes agindo cada um por conta prpria) lida com complexidade. O neuromuscular nos defende de ameaas grandes  surras, atropelamentos, ladres. O imunolgico lida com inimigos minsculos  bactrias, vrus, fungos. Por terem funes diferentes, os dois sistemas adotam estratgias diferentes. 
     No neuromuscular, a lgica  hierrquica, centralizada e linear  o crebro manda, nervos e msculos obedecem, todos juntos, orquestrados, somando esforos numa mesma direo, para gerar uma ao em grande escala (um soco, por exemplo). J no sistema imunolgico, cada clula age com liberdade e se comunica com as outras, o que gera milhes de aes a cada segundo, uma diferente da outra, cada uma delas microscpica, em pequena escala  e o resultado final  uma imensa complexidade, com o corpo protegido de uma quantidade quase infinita de possveis ameaas. 
     Para viver saudvel  preciso ter os dois sistemas: neuromuscular e imunolgico. Um sem o outro no adianta. No h nada que um bceps forte possa fazer para matar uma bactria, assim como glbulos brancos sarados so inteis numa briga.  assim com todo sistema complexo: precisamos de algo hierrquico para lidar com a escala das coisas, e de algo conectado em rede para a complexidade. 
     O problema do mundo de hoje, e a razo para o desconforto descrito no comeo deste texto,  que nossa sociedade est toda ajustada para lidar com escala, mas  absolutamente incompetente na gesto da complexidade. Estamos combatendo infeco a tapa. Tudo por causa de uma inveno que est completando 100 anos. 

O SCULO DA ESCALA 
     Foi talvez a inveno mais transformadora da era contempornea, mas ningum registrou o nome do inventor, nem a data do "eureca". Na verdade, ningum nem mesmo deu um nome ao invento. S cerca de um ano depois, uma revista tcnica de engenharia fez o batismo: linha de montagem. 
     Segundo as pesquisas do historiador David Nye em seu livro America's Assembly Line ("A linha de montagem da Amrica", sem verso em portugus), a inveno da linha de montagem ocorreu em algum momento de novembro de 1913. A dificuldade de estabelecer uma data precisa vem do fato de que a inveno foi gradual, coletiva e aconteceu quase espontaneamente. Ela no foi uma ideia espocando do nada na mente de algum cientista brilhante  foi uma resposta social a uma necessidade premente. 
     A necessidade era aumentar a produo de carros. Em 1900, s 5 mil americanos tinham carro  apenas 13 anos depois, j eram mais de 1 milho. Centenas de fbricas trabalhavam sem parar para atender a essa exploso da demanda, mas ainda assim as fbricas recebiam mais pedidos do que eram capazes de atender. Isso gerou uma corrida entre as fbricas por ganhos de produtividade. 
     Quem ganhou essa corrida foi a empresa de um mecnico chamado Henry Ford. No esforo de poupar segundos e assim fazer mais carros por dia, os mecnicos e engenheiros da Ford foram aprimorando seu processo. Comearam a padronizar milimetricamente cada pea do carro, para acelerar os encaixes. Cronometraram cada movimento dos mecnicos, para descobrir o melhor jeito de fazer cada tarefa. E, a cereja do bolo: inverteram a lgica da fbrica. Em vez de grupos de mecnicos andando de uma carcaa a outra para montar os carros, eram os carros que se moviam num trilho, puxados por cordas, no meio de um corredor de mecnicos. Cada mecnico realizava uma tarefa curta e repetitiva, de maneira que nenhum deles tinha mais o domnio do processo todo. Resultado: a  fbrica comeou a despejar nas ruas um carro novo a cada minuto. 
     Em 1910, a Ford tinha feito 19 mil carros. Em 1911, 34 mil. Em 1912, 76 mil. Em dezembro de 1913, a linha de montagem comeou a operar. Em 1914, a empresa montou 264.972 carros  todos idnticos. Um aumento de produtividade descomunal, que possibilitou a Henry Ford dobrar o salrio de seus operrios e ao mesmo tempo baixar o preo dos carros, transformando operrios em clientes. 
     O sucesso foi to grande que, nas dcadas que se seguiram, a lgica da linha de montagem se espalhou por toda a indstria, em todo o mundo. Bicicletas, geladeiras, telefones, televisores passaram a ser montados em esteiras rolantes ou trilhos, com peas sempre iguais montadas por trabalhadores superespecializados. At mesmo a comida se encaixou nesse esquema: nossos alimentos tambm passaram a ser padronizados e montados industrialmente com acrscimos qumicos de nutrientes. Prdios passaram a ser produzidos com peas idnticas e tarefas cronometradas, o que inaugurou a era dos arranha-cus nos anos 30. 
     Nossa vida est cheia de linhas de montagem  o carrinho do   supermercado passando entre corredores de produtos, o automvel trafegando em rodovias rodeadas de lojas, as filas de carros nos drive-thrus do mundo. Ao longo do ltimo sculo, a lgica da linha de montagem chegou a todas as esferas da vida. 
     A educao, por exemplo. "As escolas hoje so organizadas como fbricas", disse o educador britnico Ken Robinson numa palestra no TED. "Educamos crianas em lotes", disse, referindo-se ao hbito de separar os alunos em sries. Sade, governo, cidades, cultura, cincia. Praticamente tudo nessa alvorada do sculo 21 parece seguir o mesmo esquema: diviso do trabalho numa sequncia linear de tarefas especializadas, montagem gradual das peas, ganhos constantes de eficcia, produtos padronizados. "A linha de montagem passou a ser muito mais que um arranjo fsico de mquinas", disse Nye. "Ela  o centro de um sistema cultural que se estende at muito alm dos portes das fbricas." Esse sistema cultural aumentou de maneira explosiva a escala de tudo. 
     E esse aumento de escala mudou o mundo de uma maneira espetacular. Quando os funcionrios da Ford conceberam a linha de montagem, havia menos de 2 bilhes de pessoas no mundo inteiro. Hoje, apenas um sculo depois, j passamos dos 7 bilhes  um aumento populacional quase inacreditvel que s foi possvel graas a um espetacular ganho global de produtividade. 
     A produo de comida, de casas e de bens de consumo aumentou astronomicamente para atender tanta gente. E, mesmo com a exploso populacional, hoje a proporo de pessoas no mundo com acesso a sade e educao  maior que nunca, graas ao ganho de escala alcanado pelos servios pblicos. A populao global produz mais, consome mais, vive mais, sabe mais do que em qualquer outro perodo da histria humana. Esse  o resultado de 100 anos da era da escala. Sob muitos aspectos, foi o maior salto de progresso da histria da humanidade. Por que ento o mal-estar? 

O SCULO DA COMPLEXIDADE 
     Lembre-se do que Bar-Yam escreveu:  todo sistema complexo precisa ter uma estratgia para lidar com escala e outra para a complexidade. A linha de montagem  como o sistema neuromuscular  tima para escala. 
     Ela  linear e hierrquica  so os executivos que mandam nos engenheiros, que por sua vez controlam os mecnicos, assim como o crebro comanda nervos que acionam msculos. Por isso, ela s consegue dar uma resposta de cada vez: um soco no caso do sistema neuromuscular, um carro sempre idntico no caso da linha de montagem. Nossa sociedade moldada ao longo dos ltimos 100 anos  imagem da linha de montagem  tima para aes de escala, mas no tem flexibilidade alguma para lidar com complexidade. Estamos sem sistema imunolgico. 
     " fcil ficar pessimista com o mundo de hoje", diz Bar-Yam. Em meio s inmeras linhas de montagem que dominam a humanidade, parece que toda a complexidade do mundo est fugindo do nosso controle, enquanto nos sentimos impotentes para resolver problemas  nossa volta.  essa a histria que o ilustrador Marcio Moreno procurou contar no desenho surreal que percorre estas pginas. 
     Por todo lado, h exemplos de aes de escala que acabam esmagando a complexidade. Por exemplo: nosso modelo de  produo industrial, que aumentou prodigiosamente nossa capacidade de fazer coisas, mas est causando um acmulo global de lixo e gases de efeito estufa e levando milhares de espcies  extino e quase todos os ecossistemas ao colapso. Ou nossas tentativas industriais de aumentar a segurana, o que hiperlotou o mundo de regras impossveis de cumprir e de senhas impossveis de lembrar. 
     Ou nossos sistemas de alimentao e sade, que focaram tanto na escala da produo de alimentos, de maneira a baratear a comida, que a complexidade dos micronutrientes se perdeu. E hoje, pelo visto, estamos pagando o preo, com a exploso das "doenas complexas": males difusos, de causas mltiplas, como cncer, doenas autoimunes, degenerativas e psiquitricas. 
     Ou ainda nosso sistema de educao, concebido com uma lgica linear e padronizadora, para formar alunos idnticos, todos com os mesmos conhecimentos. Alm de nivelar por baixo, detonando a qualidade da educao, esse modelo padronizador  justamente o contrrio do que nosso mundo complexo precisa hoje  gente diversa, capaz de resolver problemas diversos. Segundo Bar-Yam, desde o tempo das cavernas, sempre que algo comea a pifar porque a complexidade fica grande demais, "temos uma forte tendncia de tentar descobrir quem  o responsvel. Algum tem que ser demitido, algum tem que pagar, algum tem que ser punido", diz. E a escolhemos um novo chefe ou criamos uma nova hierarquia para lidar com o problema. S que hierarquias so pssimas para gerir complexidade. O nico jeito de lidar com sistemas complexos  criando estruturas de controle complexas; redes de gente com autonomia de identificar e resolver problemas. 
     Perguntei a Bar-Yam como o Brasil deveria lidar com nossos frustrantes polticos. Ele respondeu que o problema no  s do Brasil. "Precisamos de um novo tipo de democracia", disse. "Nossa democracia usa o voto para agregar a capacidade de deciso da populao. Isso no  eficiente, porque reduz uma grande quantidade de informao (o conhecimento de todos os cidados) a um pequeno nmero de respostas (os seus representantes)". Faria mais sentido imaginar um sistema poltico mais imunolgico, no qual cada cidado reage com autonomia s ameaas que enxerga, como um glbulo branco. Poltica, economia, sade, educao, sustentabilidade, clima, cidade. Em todo lugar onde h complexidade, parece estar ocorrendo  uma espcie de colapso. Mas, assim como aconteceu 100 anos atrs com a linha de montagem respondendo  nossa necessidade de escala, desde a dcada de 1990, uma srie de inovaes parece estar surgindo espontaneamente em resposta  nossa necessidade de complexidade. Primeiro veio a internet, que nos conectou em rede, criando uma alternativa para as estruturas hierrquicas. E agora as inovaes esto pipocando. 
     Tem todos os esquemas de compartilhamento de recursos  quartos, casas, carros, bicicletas, ferramentas, espao para trabalhar  nos ajudando a otimizar o uso de recursos. Tem os moradores que assumem a responsabilidade por cuidar dos espaos pblicos e criam praas melhores do que qualquer prefeito seria capaz. Tem os sites de crowdfunding, crowdsourcing e as outras formas de colaborao criativa, que geram um novo modelo de indstria. Tem os aplicativos de trnsito, como o Waze, que do a cada motorista o poder de encontrar um caminho que flui, o que acaba melhorando o trnsito como um todo. Tem as redes de pacientes de doenas raras, trocando informaes pela internet e muitas vezes ajudando uns aos outros mais do que nosso sistema superespecializado de medicina. Tem as manifestaes parando as ruas do mundo e forando os dirigentes polticos a repensarem sua relao com os cidados. Tem as grandes empresas, trocando o comando vertical por estruturas de controle mais distribudo. 
     E, em 2014, o mundo parece estar preparado para uma transformao profunda  possivelmente to profunda quanto aquela de 1914. Talvez a essa angstia com a complicao da vida passe. "Quando somos parte de um time complexo, o mundo se torna um lugar notavelmente confortvel, porque conseguimos agir de maneira eficaz, ao mesmo tempo em que estamos protegidos da complexidade do mundo", diz Bar-Yam. Enquanto isso no acontece, talvez ajude saber que a origem do problema no est em ns.  o mundo que est organizado errado. 

A PRIMEIRA LINHA - J entramos na vida por uma linha de montagem. O Brasil  um dos pases que mais fazem partos por cesrea, o que permite um ritmo industrial: procedimentos rpidos e padronizados, com hora marcada, e mulheres anestesiadas, para no atrapalharem o processo.
ALUNOS IDNTICOS - A educao bsica  padronizadora, com alunos divididos em sries (lotes), e o mesmo contedo ensinado a todos. Alunos com talentos nicos so enquadrados, nivelando o sistema por baixo e reduzindo a diversidade da sociedade.
DOPING ESCOLAR - Num modelo industrial de educao,  desejvel que os alunos sejam padronizados, assim como as peas numa linha de montagem. Talvez isso explique a "epidemia" de dficit de ateno nas crianas ocidentais. Remdios psiquitricos ento "padronizam" o temperamento. 
MUNDO HIERRQUICO - A educao produz adultos talhados para uma sociedade hierrquica  uns so formados para mandar, outros para obedecer, como exige a sociedade industrial. Quase ningum aprende a trabalhar de forma colaborativa e a resolver problemas juntos, como exige o mundo complexo. 
ENGARRAFAMENTO SEM FIM - Num mundo hierrquico, as pessoas so obcecadas por sinais de diferenciao social  e o mais poderoso deles  o carro. No   toa que 10 mil novos carros chegam s ruas do Brasil por dia, e que como consequncia a velocidade mdia de um carro seja equivalente  de uma galinha.
CONSUMO EM MASSA - Numa sociedade industrial de escala, no basta haver produo em massa  o consumo precisa ser em massa tambm. Por isso, os maiores prdios dos nossos tempos, equivalentes s catedrais na Idade Mdia, so os shopping centers, que se transformaram nas reas preferidas para o lazer. E haja rolezinho.
A LTIMA LINHA - A vida segue com sua lgica industrial at o final. A maioria das pessoas morre em UTIs de hospitais, depois de uma longa e cara agonia que quase sempre consome mais recursos do que todos os gastos mdicos de uma vida inteira. UTIs so lugares impessoais, que mantm os pacientes longe das pessoas que importam para eles.

PARA SABER MAIS
Making Things Work. Yaneer Bar-Yam, Nesci Knowledge Press, 2004
America's Assembly Line. David E. Nye, MIT Press, 2013


3#5 TECNOLOGIA  UM ROB NO SEU LUGAR
VOC J PODE FICAR EM CASA  E MANDAR UMA MQUINA IR TRABALHAR OU ESTUDAR POR VOC. CONHEA OS ROBS DE TELEPRESENA, QUE ESTO GANHANDO ESCOLAS, HOSPITAIS E EMPRESAS PELO MUNDO.
REPORTAGEM / Anna Carolina Rodrigues
EDIO / Bruno Garattoni

     Devon Carrow  um menino alegre e sorridente. Exceto por um detalhe: ele tem sndrome de choque anafiltico, doena que causa reaes alrgicas e pode matar. Por isso, o garoto de 7 anos no pode sair de casa, nem para ir  escola. Mas, desde o ano passado, ele est frequentando as aulas do colgio de West Seneca, no Estado de Nova York, por meio de um rob. A mquina, que foi criada pela empresa americana VGo e custa US$ 6 mil, fica na sala de aula, ao lado dos demais alunos. Devon fica em casa, vendo e ouvindo tudo via internet. O professor e os alunos o vem e ouvem por meio do rob, que mostra a cara do menino e reproduz sua voz. Quando quer fazer uma pergunta, Devon aperta um boto e o rob acende uma luz para pedir a palavra ao professor. Na hora do recreio, ele acompanha os amiguinhos usando a mquina, cujos movimentos tambm controla. " como jogar um videogame.  muito legal", disse o menino  agncia de notcias Associated Press. Os robs de telepresena no pensam nem agem sozinhos e, a rigor, no so muito mais do que webcams sobre rodas. Mas so a primeira criatura robtica a se integrar ao cotidiano humano. Alm de Devon, mais 48 crianas j esto frequentando a escola graas a robs desse tipo, que so fabricados por vrias empresas e tambm esto comeando a ser usados em escritrios, residncias e hospitais pelo mundo. 
     Aps o terremoto que devastou o Haiti, em 2010, o mdico brasileiro Antnio Marttos, do hospital de traumatologia da Universidade de Miami, usou um rob de telepresena para orientar mdicos no tratamento de 450 pacientes. E, no ano passado, aps o atentado terrorista na maratona de Boston, ele tambm se comunicou com mdicos locais por  meio de um rob. " como ter um mdico a mais no leito. E como o mdico a distncia est em um ambiente mais controlado, sob menos estresse, isso ajuda na hora de fazer o diagnstico, diminui a chance de erro", conta Marttos. Segundo ele, os robs de telepresena j so usados at em hospitais do interior da Flrida, que assim podem contar com a atuao de especialistas. Basta que o mdico acesse o site do hospital e digite uma senha para assumir o controle do rob. A, ele usa a mquina para circular livremente, conversar com pacientes e checar resultados de exames. Alguns modelos at tm entrada para um estetoscpio eletrnico, que pode ser usado para fazer um check-up rpido dos pacientes. Tudo isso ajuda os hospitais a economizar. Mas tambm pode fazer a diferena para os doentes. 
     Em setembro do ano passado, o americano Don (o sobrenome no foi divulgado pelos mdicos) saiu de casa para ir trabalhar. No meio do dia, comeou a passar mal. Don no sabia, mas estava tendo um acidente vascular cerebral (AVC). Um derrame. Por sorte, ele estava no melhor lugar possvel: um hospital, o Providence Hood River Memorial, em Oregon, onde trabalhava. Em questo de minutos, j estava deitado em uma maca sendo examinado por um mdico. Quando a pessoa tem um derrame, agir rapidamente  fundamental. Isso porque existe uma droga, chamada rtPA, que desobstrui cogulos e restabelece a circulao sangunea no crebro. Ela pode evitar sequelas gravssimas, como perda da fala e dos movimentos. Mas tem de ser injetada no mximo trs horas aps o acidente vascular. 
     O problema  que, no caso de Don, os especialistas no conseguiam chegar a um diagnstico. Eles decidiram pedir ajuda ao neurologista Nicholas Okon, um dos membros da Providence Telestroke Network  organizao que d acesso a especialistas em derrame, 24 horas por dia, pela internet. Okon assumiu o comando do rob do hospital, fabricado pela empresa InTouch, e pde observar o paciente e os sintomas como se estivesse l pessoalmente. "O acidente vascular cerebral  uma epidemia nos EUA. Ns criamos essa tecnologia justamente para suprir a necessidade de ter um neurologista na emergncia", conta o mdico brasileiro Marcos de Sousa, diretor da empresa. Graas  ajuda do rob e do neurologista, Don recebeu o tratamento adequado e ficou bem. Os robs tambm podem ajudar a cuidar de idosos. Para avaliar como essas pessoas lidariam com a presena de uma mquina, a VGo colocou alguns robs em casas de repouso. "Eles adoraram, sentiram que estavam recebendo mais ateno", conta Ned Semonite, vice-presidente da empresa, que usa um rob para acompanhar a rotina da prpria me, de 84 anos. "Antes ela ficava sozinha, e muitas vezes no atendia o telefone. Eu precisava pedir aos vizinhos que fossem at a casa dela. Agora eu simplesmente ligo o rob, converso, ando pela casa e tenho certeza de que ela est bem", diz. Segundo ele, a recepo em escolas tem sido boa, mas com as brincadeiras de praxe. "Em um colgio, umas meninas taparam a cmera do rob com fita." Foram parar na sala do diretor. 

DA FIRMA  OLIMPADA 
     Os maiores adeptos dessa tecnologia so as empresas. Elas no gostam de discutir o assunto (a SUPER procurou vrias companhias que utilizam robs de telepresena, e nenhuma quis falar a respeito), mas esto cada vez mais prximas das mquinas  s nos EUA, j so mais de 700 robs do tipo em empresas. A vantagem  que o profissional pode se deslocar pelo escritrio, falar com vrias pessoas e participar de reunies em vrias salas, com muito mais agilidade e presena fsica do que se estivesse se comunicando por Skype ou e-mail. Na prtica, isso nem sempre  to fcil quanto parece. Como ns da SUPER constatamos ao substituir um de nossos editores por um rob (leia texto na pgina 59). Tambm houve casos de empresas e executivos que abandonaram a tecnologia, considerada complicada demais. Mas isso no desanima os fabricantes. "Quando surgiram ferramentas como o Skype, algumas  pessoas questionaram a necessidade de ver o rosto da pessoa com quem se estava falando, mas depois entenderam o valor disso. Acho que com os robs de telepresena vai acontecer a mesma coisa", acredita Semonite, da VGo. 
     O Comit Olmpico Brasileiro  igualmente otimista; pretende usar robs, em parceria com a Universidade de Miami, para auxiliar no tratamento de atletas durante as Olimpadas de 2016. A tecnologia j foi usada pelo COB em um projeto-piloto durante os Jogos Olmpicos de Londres. Na ocasio, durante um treino, a ginasta Las de Souza teve uma fratura na mo. Por meio do rob, a equipe mdica contactou um especialista da Universidade de Miami que ajudou a diagnosticar o tipo e a gravidade da leso (que acabou levando ao corte da atleta). "Como no  possvel levar um milho de especialistas para o evento esportivo, levamos bons mdicos, e com o rob temos acesso a especialistas do mundo inteiro. Ele no substitui o mdico local, mas multiplica e otimiza o diagnstico rapidamente", conta Jos Alfredo Padilha, chefe mdico da delegao brasileira nos Jogos Olmpicos de Londres. 
     Os robs de telepresena ainda esto longe de ser comuns. Mas dois modelos querem mudar isso e dar um empurro decisivo na popularizao da tecnologia. O primeiro  o Luna, da marca RoboDynamics. Ele  o primeiro rob aberto, ou seja, capaz de rodar aplicativos criados por terceiros. A ideia  que outras empresas criem apps que explorem as capacidades do rob, adicionando funes de segurana, fotografia, lazer etc, e cada usurio baixe aqueles que quiser. Em suma, reproduzir o modelo dos smartphones no mundo da robtica. O problema  que, mesmo sendo mais acessvel do que os outros robs, o Luna ainda no  barato: vai custar US$ 3 mil. Esse obstculo  superado pelo Synergy Swan, que foi criado pela empresa russa R.BOT e custa US$ 1 mil nos EUA  mesmo preo de um iMac. "Ns queremos colocar um rob em cada casa", diz Fred Nikgohar, da RoboDynamics. 
     Parece improvvel? Sim. Como soava improvvel o objetivo de um tal William, que em 1975 fundou uma empresa com o mesmo sonho: levar uma nova tecnologia a "todas as casas e escritrios" do planeta. Os especialistas diziam que era absurdo, ningum iria querer aquele produto. Erraram. Hoje, a maioria das casas tem um PC  e William Gates, vulgo Bill,  o homem mais rico do mundo. 

UMA NOVA PRESENA
Vrias empresas e modelos j competem pelo novo mercado de robs de telepresena.

Synergy Swan
R.BOT (RSSIA)
US$ 1.000
Pode ser acoplado a qualquer smartphone ou tablet Android  que vira o "rosto" do rob. Alm de transmitir a imagem e a fala do dono, tambm pode ser programado para fazer coisas sozinho (atuar como um guia de museu, por exemplo). 
Tamanho da Tela varia
1,8 Km/h
Altura 0,91nm
Bateria: n/d

VGo
VGO COMMUNICATIONS (EUA)
US$ 6.000
Tem luzes de LED para iluminar ambientes escuros. Percebe quando sua bateria est acabando e vai sozinho at o carregador. J  usado em escolas e hospitais nos Estados Unidos.
Tamanho da Tela 7
4,8 km/h
Altura 1,22 m
Bateria: 6 horas

Double
DOUBLE ROBOTICS (EUA)
USS 2.500
Usa um iPad como "cabea". Tambm aproveita a comera traseira do iPad, ou seja, permite ver o que est atrs do rob (o que facilita as manobras). 
Tamanho da Tela 9,7
2,4 km/h
Altura 1,16 m a 1,47 m
Bateria: 8 horas

RP-7i
INTOUCH HEALTH (EUA)
PREO SOB CONSULTA
Tem entrada para instrumentos mdicos, como estetoscpio digital. Est presente em 250 hospitais americanos.
Tamanho da Tela 15
3,2 Km/h
Altura 1,52 m
Bateria: 4 a 8 horas


Luna
ROBODYNAMICS (EUA)
US$ 3.000
Capta udio e vdeo com alta resoluo  pois tem uma cmera de 8 megapixels e trs microfones. Poder baixar aplicativos e ganhar novas funes (como mordomo ou segurana, por exemplo.
Tamanho da tela 8
Velocidade no informada
Altura 1,52 m
Bateria: 4 a 8 horas

EU ROB 
Arranjei um rob de telepresena - e o coloquei no meu lugar. Eu previa uma semana de moleza, trabalhando sem sair de casa. Mas a realidade foi diferente. 
TEXTO / Bruno Garattoni 

     A tela se acende e vejo que sou o centro das atenes. Excitados, colegas e chefe riem e tiram fotos. Resolvo dar uma voltinha e viro assunto do andar inteiro. Olho a cara das pessoas e no sei se esto admiradas por meu vanguardismo ou espantadas com a disposio em pagar tamanho mico. Porque hoje no fui trabalhar: estou representado, na redao da SUPER, por um rob de telepresena. Ele foi criado pelos estudantes Igor Radames, Fernando Sardinha, Rafael Neves, Felipe Esposito e Fernando Silva, do curso de Engenharia da Computao da Faculdade So Judas Tadeu.  um trabalho acadmico, no um produto comercial, e por isso tem limitaes (os rapazes levam algumas horas at conseguir lig-lo pela primeira vez). 
     As pessoas da redao logo se acostumam  mquina, e eu posso comear a tentar trabalhar. Primeira surpresa: minha casa  muito mais ruidosa do que eu pensava. As obras dos vizinhos e os avies passando por cima do prdio atrapalham demais, fazem muito barulho. E no posso ouvir uma msica (pois o udio do rob monopoliza a placa de som do laptop). Tambm descubro como  difcil passear pela redao. Como ela est cheia de mesas, cadeiras e coisas jogadas, no consigo fazer o robozinho andar dois metros sem esbarrar em algo. s vezes ele empaca ou d pau, e preciso pedir ajuda. Participo de reunies numa boa. Vejo e ouo bem, as pessoas me entendem. Mas  quase impossvel fazer outra coisa, como escrever um e-mail ou editar um texto, pois no consigo ignorar os estmulos da redao e entrar no meu mundinho (e se algum quiser falar com o rob?). Tambm me sinto acorrentado ao laptop, com medo de levantar at para ir ao banheiro (e se algum quiser falar com o rob???).  muito desgastante. Tanto que, embora tivesse planejado ficar a semana toda usando a mquina, resolvo terminar a experincia aps o primeiro dia. A vida real cansa menos. 

PARA SABER MAIS
Telepresence and Learning Style: Effect on Achievement and Altitude of University Students. Nonofo Losike-Sedimo. Lambert Academic Publishing, 2010.
Immersed in Media: Telepresence in Everyday Life. Cheryl Bracken. Routledge, 2009.


3#6 TECNOLOGIA  A GRANDE BALEIA DE AO
Conhea o Maersk Triple-E, o maior navio porta-contineres do mundo: um gigante que transporta 165 mil toneladas de produtos a cada viagem.
INFOGRAFICO - Giselle Hirata, Alexandre Jubran, Fabrcio Miranda, Paula Bustamante, Felipe van Deursen

INATINGVEL
Por causa de seu tamanho, s 14 portos do mundo podem receb-lo  todos na Europa e na sia.
Sada: Xangai, China
Chegada: Roterd, Holanda
22-25 DIAS (S DE IDA)

Comprimento do Triple-E: 400m
Maior navio que entra no Porto de Santos: 325 m

HAJA ECONOMIA
Poder carregar mais produtos em uma s viagem faz com que o Triple-E seja considerado o mais eficiente porta-continer que existe.

EMISSO DE CO2 POR QUILMETRO PERCORRIDO
Triple-E 3g
Caminho 47g
Avio 560g
Trem 18g

60 ton de ao [ 8,4 torres Eiffel

CAPACIDADE TOTAL 165 MIL TON
Se empilhados, os contineres chegariam  estratosfera terrestre. (43,2 mil metros). Alinhados, chegam a 110 km.
Estratosfera  contineres empilhados
Troposfera  Monte Everest

O QUE ELE CARREGA...
20% eletrodomsticos e utenslios de cozinha
15% mveis
10% txteis
5% jogos e brinquedos
10% veculos e peas para automveis
40% diversos

E COMO CARREGA...
18 mil contineres empilhados em 23 fileiras
Tamanho do continer: 6,1M comprimento; 2,4M altura

HIDRODINMICA
A maioria dos navios tem o casco em forma de "V", que cria menos resistncia na gua. O Triple-E  em "U", ficando, assim, mais lento. Mas esse formato aumenta o espao de carga. Para reduzir o impacto das ondas, a proa de bulbo  arredondada.

SALA DE MQUINAS  Velocidade mxima: 23 ns (42 KM/H).
Levaria 1 semana para atravessar o litoral brasileiro sem escalas.
DOIS MOTORES a diesel impulsionam duas hlices gigantes, cada uma com quatro lminas e 9,8 metros de dimetro.

TORRE DE CONTROLE
Fica na parte frontal para dar aos comandantes uma viso mais ampla e clara quando o navio est carregado. A tripulao (34 pessoas no mximo) fica em acomodaes na parte inferior da estrutura.

MEDIDAS TRASATLNTICAS
TRIPLE-E
Altura 73 m [Cristo Redentor tem 38 M de altura]
Largura 59 m
Comprimento 400m [12 baleias azuis enfileiradas (uma baleia = 34M). Quase 2,5 trens metropolitanos de So Paulo (um trem metropolitano de SP = 170M)]

TITANIC
Comprimento 269 m
Largura 28 m

MSC PREZIOSA
(maior navio de cruzeiro nesse vero no litoral brasileiro)
Comprimento 333 m
Largura 30 m

Fontes: Agencia Nacional de Transportes Aquavirios (Antaq); Cludio Rossoni, professor do Logstica da Fatec Jundia; Fernanda Canerana, professora de Gesto Ambiental da Fatec Jundia; Guaraci Lima de Morais, professor de Logstica e do Meio Ambiento em Transporte da Fatec So Jos dos Campos; Maersk Martime Technology; Porto de Santos; Ministrio dos Transporte.


3#7 ECONOMIA  PIRMIDES  QUER PERDER DINHEIRO? PERGUNTE-ME COMO
Elas so as fnix do mundo das finanas: parecem mortas, mas sempre renascem com uma nova roupagem, dando dinheiro fcil e virando febre. Entenda como as pirmides enriquecem meia dzia e quebram multides.
TEXTO / Alexandre Versignassi e Cristine Kist

     Voc abre um negcio: a Quops Empreendimentos. E vai atrs de scios. Arranja cinco. Cada um pagou R$ 10 mil para estar na jogada com voc. Mas no  o bastante. Ento voc pede para que cada um deles arranje mais cinco scios cada. "Quem conseguir vai ter o nome gravado aqui, nesta placa de marfim. Para sempre", voc diz. E os caras, motivados pelas suas palavras inspiradoras, conseguem mesmo. Voc termina com 25 scios novos. Ento paga R$ 10 mil para cada um dos cinco scios-fundadores. Todo mundo fica contente: cada um deles embolsa um retorno total do investimento logo de cara. E voc, o chefe da coisa toda, acaba com RS 200 mil para investir na Quops. 
     Mas espera um pouco. Se deu para levantar R$ 200 mil to rpido, por que no fazer outra rodada de recrutamento de scios? A voc d uma palestra para aqueles 25 que acabaram de entrar e pede para que eles chamem mais cinco sujeitos cada um: "E quem conseguir vai ganhar uma cadeira vitalcia no conselho diretor!". Como voc  um gnio da motivao, d certo de novo. S que agora a escala  outra, de gente grande: a operao rende R$ 1.250.000. 
     Voc, que alm de gnio  generoso, distribui R$ 300 mil de bnus para a sua diretoria toda, que agora tem 30 pessoas (os cinco primeiros e os 25 que vieram depois). Cada um leva R$ 10 mil. Os 25 scios mais recentes acham lindo: mal entraram para a Quops e j conseguiram retorno. Mas bom mesmo fica para aqueles cinco originais. Eles levantam mais R$ 10 mil cada um, dobrando o investimento inicial. E dessa vez sem fazer nada. Poderiam ter ficado em casa assistindo Vdeo Show que teriam ganhado 100% de retorno do mesmo jeito. Uau. 
     Mas bom mesmo est para voc. Sobrou quase R$ 1 milho na sua mo. Um empresrio comum pegaria esse dinheiro e investiria em equipamentos e funcionrios. Mas voc no  um empresrio comum.  um gnio. Descobriu que isso de "equipamentos e funcionrios"  coisa para losers: o que d dinheiro mesmo  conseguir mais scios. A maior prova de que isso no tem erro? Seus prprios scios! Eles mesmos esto ganhando mais do que conseguiriam em qualquer outro tipo de investimento. E o melhor: conforme a notcia do dinheiro fcil se espalha por a, fica cada vez mais fcil amealhar gente. Ser scio da Quops vira uma ambio coletiva. As pessoas comeam a pedir dinheiro emprestado s para poder entrar nessa. 
     Fica to fcil que a sua "terceira gerao" de scios, os 125 sujeitos que aqueles 25 tinham trazido, acabam puxando cinco scios novos cada um sem fazer fora. Resultado; um faturamento bruto de R$ 6,25 milhes. A essa altura, a diretoria j conta com 155 pessoas (os cinco primeiros, os 25 da segunda gerao e os 125 da terceira). Pagando os R$ 10 mil de bnus para cada um, voc gasta RS 1,55 milho. Uma bela grana, mas ainda sobram R$ 4,7 milhes e uns quebrados para voc. Limpos. E s com os quebrados j d para comprar um Porsche. Tudo sem que a Quops tenha sado do papel, ou mesmo vendido qualquer produto. O grande lance dela, no fim das contas,  arrumar cada vez mais scios pagantes. Em pouco tempo, os scios do topo da pirmide ficam milionrios. E voc, o criador, bilionrio  e idolatrado pelas multides que esto triplicando, quadruplicando o dinheiro delas com voc. 
     Bom, o que voc leu at agora  o que os economistas chamam de "modelo", uma aproximao simplificada da realidade. Uma aproximao para explicar como funciona um esquema de pirmide financeira. O irnico  que, apesar de isso ser um modelo, ele  modesto em comparao com o que acontece na vida real.  o que vamos ver agora. 
     
MATEMATICAMENTE INVIVEL
     Quando chegou ao Acre em novembro passado, o empresrio Carlos Costa teve uma recepo digna de Neymar. Assim que desembarcou, ele foi ovacionado por centenas de pessoas que se espremiam no aeroporto Plcido de Castro para registrar o momento com cmeras de celular. Carlos Costa foi um dos responsveis por trazer a TelexFree para o Brasil. Ele foi a Rio Branco (receber o carinho do pblico e) participar de uma audincia de conciliao com o Ministrio Pblico, que desde maro acusa a empresa de operar um esquema de pirmide. Uma estimativa sugere que 70 mil dos 700 mil habitantes do Acre se envolveram com a TelexFree de alguma forma  um indicador de que o Ministrio Pblico talvez esteja certo. 
     Naquele modelo que voc acabou de ler, o da Quops, a empresa no produzia nada. Na vida real, as pirmides at vendem alguma coisa. Mas geralmente  s fachada. So produtos que elas fazem questo de no vender. O economista Samy Dana explica: "Vender um produto d trabalho, requer investimento em compra de mquinas, embalagens e malha logstica. A pirmide geralmente possui produtos invendveis, seja pelo fato de no existirem ou pelo fato de no terem preos competitivos". 
     Sem fazer dinheiro com nada concreto, as pirmides geralmente vo muito bem at dar de cara com uma lei da natureza: a finitude das coisas. No caso, de gente disposta a pagar para virar scio. Na nossa empresa fictcia, a quarta gerao de scios j  um grupo de 625 pessoas; a seguinte, mantendo a taxa de crescimento, seria de 3.125, depois 15.625... Uma hora a fonte seca. 
     E  a que a pirmide torce a base. "Esse tipo de negcio  matematicamente invivel", diz Dana. As ltimas geraes da pirmide provavelmente vo ficar no prejuzo, j que no devem conseguir as pessoas necessrias para recuperar o que investiram. E, como o nmero de associados tende a crescer exponencialmente, as ltimas geraes podem representar quase 90% da pirmide inteira. Essa multido s ter servido para encher os bolsos dos 10% dos andares de cima. E para ter doado manses de praia para quem termina com o grosso do dinheiro: o 1% do topo, o pessoal que estava no esquema desde o comeo. "Alguns poucos, que so os geradores desse movimento, saem no lucro. E eles deixam que um pequeno nmero de pessoas inocentes tambm ganhe para demonstrar aos outros membros que existe chance de enriquecer", resume Fbio Glio, professor de finanas da FGV. 
     Usando o mtodo Carlos Drummond de Andrade, d para deixar mais claro: Joo indicou Tereza que indicou Maria que indicou Joaquim que indicou Lili que no encontrou ningum para indicar e ficou no prejuzo. S que as Lilis so a grande maioria nessa histria, que comeou h um sculo. 
     
PONZI, O HOMEM DO ESQUEMA
     Foi um conterrneo de Silvio Berlusconi o responsvel por bolar o primeiro esquema de pirmide da histria. Charles Ponzi era um dos muitos imigrantes italianos pobres que chegaram aos Estados Unidos no incio do sculo 20. Depois de passar um tempo na pior, ele descobriu que podia tirar uma graninha com cupons postais internacionais. Esses cupons podiam (e ainda podem) ser comprados nos correios de qualquer pas e trocados por selos no exterior. Na poca, Ponzi descobriu que os cupons comprados na Europa eram mais baratos que os selos vendidos nos EUA. E comeou a fazer o bvio: importar cupons baratinhos da Europa para trocar por selos americanos e embolsar a diferena. At a, beleza. 
     O problema s comeou de verdade quando ele decidiu chamar mais gente para o negcio. Na teoria, esses novos investidores estavam dando dinheiro a Ponzi para que ele comprasse os cupons, trocasse pelos selos e devolvesse uma parte da diferena, em troca desse financiamento. Mas ele no estava comprando (e muito menos vendendo) nada. Simplesmente pagava os investidores mais antigos com a grana aplicada pelos recm-chegados. Parece idiota.  idiota. Mas, como vimos, d dinheiro a rodo. E Ponzi ficou  multimilionrio. Virou at acionista de banco. 
     O sonho acabou quando um jornal comeou a questionar o modelo de negcio da empreitada. Segundo o tal jornal, para que Ponzi conseguisse pagar tudo o que devia aos investidores, mais de 150 milhes de selos precisariam estar circulando nos Estados Unidos. Mas s existiam 27 mil. No fim das contas, muita gente perdeu dinheiro, o italiano foi preso e at hoje, nos EUA, as pirmides no chamam "pyramids", mas "Esquemas de Ponzi". Curiosamente, depois de ser libertado e mandado de volta para a Itlia, Charles Ponzi resolveu tentar a vida em um outro pas: o Brasil. Acabou morrendo pobre, mas seu legado foi de muita serventia para meia dzia de malandros brasileiros. 
     No incio dos anos 2000, mais de 40 mil pessoas que no entendiam nada de avestruzes investiram na compra e venda de avestruzes s porque uma empresa prometeu lucro de 7% ao ms. A empresa em questo era a Avestruz Master, que realmente tinha frigorfico e alguns avestruzes em Gois. S que o lucro deveria vir da exportao dos bichos, e a Avestruz Master no tinha autorizao para exportar nada. O juiz responsvel por decretar a falncia da empresa chegou a dizer em uma entrevista que "nem em cem anos o Brasil consumiria carne de avestruz o suficiente para tornar a empresa vivel". 
     Tambm j virou um clssico a fatdica propaganda das Fazendas Reunidas Boi Gordo protagonizada pelo ator Antnio Fagundes. Durante os intervalos da novela Rei do Gado, em 1996, Fagundes aparecia na TV todo galante falando maravilhas sobre a rentabilida- 
     
     
     de da empresa e mandando ver um: "Faa como eu. Invista com a Boi Gordo". Investir na Boi Gordo, pelo menos na teoria, significava investir na engorda de bois e receber o lucro obtido com a venda dos animais no fim do contrato. A rentabilidade prometida era de 42% em um ano e meio. Parecia um timo negcio, tanto que mais de 30 mil pessoas colocaram dinheiro nele - e a maior parte ficou no prejuzo quando a fraude veio  tona, em 2004. Foi nesse ano que as retiradas dos velhos investidores finalmente superaram os depsitos dos novos e a empresa quebrou, deixando uma dvida de R$ 2,5 bilhes no mercado. 

O ESTADO PIRMIDE 
     O caso da TelexFree  mais complicado que os da Boi Gordo e da Avestruz Master, tanto que a empresa ainda est sendo julgada e no foi oficialmente configurada como um esquema de pirmide. A principal diferena entre o modelo de negcio da TelexFree e o chamado marketing multinvel (quando a empresa oferece seus produtos por meio de vendedores que no so funcionrios, como fazem Avon e Natura, por exemplo)  que, no marketing multinvel, a indicao de terceiros  s um extra, e o lucro mesmo vem da venda dos produtos. J no sistema da TelexFree, o produto, um pacote VoIP  sistema que permite fazer ligaes telefnicas pela internet , aparentemente no era to importante assim.  que mesmo que o sujeito conseguisse vender 20 pacotes VoIP por ms (cada um custa US$ 49,90), ele tiraria no mximo US$ 998, enquanto os recrutadores (aqueles empenhados em conseguir novos "divulgadores", como a empresa prefere chamar os investidores) podiam receber um bnus de US$ 39 mil. Pelo seguinte: alm da venda dos pacote VoIP, existia um outro jeito de tirar uma grana, que era s publicar anncios em sites de classificados gratuitos. Dizia a empresa que isso revertia em acessos para o site e, assim, mais gente acabaria conhecendo e comprando os pacotes. 
     Bom. Para ter o direito de publicar os anncios, o sujeito tinha que pagar uma "taxa de adeso" de at US$ 1.375. Quem escolhia pagar o valor mais alto tinha direito a publicar cinco anncios por dia e recebia US$ 100 por semana pelo servio  um lucro de mais de R$ 9 mil em 12 meses. E agora vem o pulo do gato: cada associado era incentivado a indicar duas pessoas para a organizao. Esses dois novos membros indicavam outros dois, que indicavam outros dois, e o primeiro membro recebia 2% de comisso sobre as publicaes de todos os membros da pirmide at o sexto nvel. A j viu: ele no precisava fazer nada, s cruzar os braos e esperar a mgica acontecer. Outro indcio de que o esquema  piramidal: desde junho de 2013, a TelexFree est proibida pela Anatel de vender seu VoIP (por irregularidades tcnicas). A empresa sempre afirma e r-  

afirma que tira seu faturamento da venda desses sistemas, no da adeso de "divulgadores" pagantes. Curiosamente, mesmo proibida de vender, a TelexFree comeou a patrocinar o Botafogo do Rio no comeo deste ano. 
     A prpria economia capenga do Pas pode ter sua parcela de responsabilidade pela exploso da TelexFree. Nosso cenrio econmico est um tdio: a renda fixa mal paga a inflao e a Bolsa virou um investimento to seguro quanto a Tele Sena. Isso deixa milhares de mentes e coraes abertos a promessas de enriquecimento rpido. "Quando as pessoas vem poucas possibilidades e aparece uma oportunidade atraente, elas acabam embarcando", diz Fbio Glio. De fato. Tanto que pases inteiros que sofriam com condies parecidas com essas acabaram caindo na armadilha das pirmides. A Albnia foi um deles. 

PIADA DE ALBANS 
     O pas s aderiu ao capitalismo nos anos 90, e o perodo de isolamento econmico tornou os albaneses presas fceis para golpistas, j que eles no tinham l muita familiaridade com o sistema financeiro. A transio do comunismo para o capitalismo at que foi rpida, mas no se constrem bancos de um dia para o outro. E na Albnia do incio dos anos 90, s trs bancos - todos estatais - concentravam 90% dos depsitos, e mesmo eles no dispunham de um grande limite de crdito. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras empresas informais de crdito. E elas inclusive eram vistas com bons olhos pelo governo, j que incentivavam o crescimento de uma economia que ainda engatinhava, e, por tabela, acabavam financiando os prprios partidos. 
     Algumas dessas empresas eram pirmides puras, sem nenhum ativo real. Outras at tinham investimentos de fato, mas no final tambm acabaram virando pirmides. Uma parte delas investia em contrabando para a antiga Jugoslvia, que naquela poca ainda sofria com sanes da ONU. Nem precisa dizer que esse no era um investimento l muito confivel. Quando as sanes foram suspensas, em 1996, as empresas albanesas perderam toda sua fonte de renda. Para evitar uma debandada geral, elas resolveram aumentar (?) as taxas de juros pagas aos investidores. A j viu: em poucos meses, 2 milhes de pessoas aderiram aos esquemas e investiram mais de US$ l bilho nas pirmides. 
     Quando o Fundo Monetrio Internacional comeou a levantar suspeitas sobre o modelo de negcio dessas empresas, o presidente da Albnia veio a pblico em defesa delas e fez com que a populao acreditasse que o FMI estava tentando boicot-las por pura maldade.
     Mas a pouco tempo depois uma delas acabou falindo e levou todas as outras junto. O governo se recusou a ressarcir os investidores, e uma guerra civil logo tomou conta do pas  mais ou menos dois teros dos albaneses tinham investido nas pirmides. Duas mil pessoas morreram, e o presidente foi obrigado a renunciar. Quando o governo interino assumiu, a indstria estava temporariamente paralisada e a moeda local tinha se desvalorizado 40% em relao ao dlar. 
     Ficou a lio: ainda que os bancos no ofeream taxas de juros muito convidativas, so opes mais seguras do que qualquer oportunidade infalvel de ganhar muito em pouco tempo. Para Samy Dana, o grande milagre do ganho fcil quase sempre vem acompanhado de uma grande mentira: "No faz sentido algum que no consegue encontrar um emprego que pague R$ 2 mil por ms achar que vai ficar rico com pirmide. A maior chance de a pessoa enriquecer  ela fazer aquilo que faz de melhor, seja em um escritrio ou em uma borracharia". 

 UMA CILADA, BINO 
Como saber se voc no est embarcando em um esquema de pirmide: 
1- VERIFIQUE se o produto possui mesmo consumidores finais (que no sejam s os prprios vendedores). Se no tiver, saia correndo. 
2- PESQUISE se o produto  competitivo, ou seja, se possui uma relao entre preo e qualidade de acordo com os padres do mercado. Se os concorrentes forem mais fortes, sinal amarelo. 
3- DESCONFIE de ganhos rpidos e fceis  nenhuma empresa dobra de valor com facilidade e por um perodo duradouro. 

A PIRMIDE MAIS CARA DA HISTRIA
     Todo mundo j ouviu falar em Bernard Madoff, o empresrio americano que operava um "fundo de penso" multibilionrio direto de seu escritrio em Wall Street. Madoff passou dcadas pagando juros altssimos aos seus riqussimos investidores (entre eles, o diretor Steven Spielberg e os bancos Santander e HSBC), e s foi pego depois que os prprios filhos o entregaram  polcia. Eles estranharam que o pai seguisse pagando juros astronmicos quando no era capaz nem de manter as prprias contas em dia. 
     Madoff estava acima de qualquer suspeita. "Ele era um cara de muita credibilidade, que se relacionava bem, j tinha sido presidente da Nasdaq e era amigo de gente importante, tanto na rea financeira quanto na indstria cultural", diz o professor Fbio Glio. Por tudo isso, os fiscais nunca cogitaram bater na porta do seu escritrio (quem montaria um negcio de fachada justo em Wall Street?) para perguntar quais eram os investimentos to lucrativos que ele fazia. No auge, seu esquema chegou a operar mais de US$ 50 bilhes. Eventualmente, o prprio Madoff confessou que usava o dinheiro dos investidores mais novos para pagar os mais antigos. Em 2009, ele foi condenado a mais de 150 anos de priso. 


3#8 ZOOM  O CU DOS CACHORROS
Fotgrafa faz registros comoventes de donos com ces em estado terminal.
TEXTOP / Cristine Kist

SESSES DE "ALEGRIA" 
Em dezembro de 2009, a fotgrafa americana Sarah Ernhart foi contratada para fotografar uma mulher que estava internada em uma clnica de cuidados paliativos e queria um ltimo registro com sua cachorrinha, Joy ("alegria", em ingls). A mulher, chamada Joan, sofria de ataques epilticos, e a labrador preta j tinha salvado a sua vida mais de uma vez. Sempre que Joy percebia que a dona ia cair, se posicionava na frente para amortecer. "Joan ficou to feliz por ter essas imagens que pediu at que elas fossem expostas no seu funeral, para que todo mundo soubesse do amor que ela sentia pela Joy", lembra Sarah. Menos de um ms depois, ela fotografou um montanhs com cncer, e esse foi o incio oficial do projeto Joy Sessions ("Sesses de Alegria"). De l para c, j foram fotografados mais de 160 animais que tinham poucos dias ou poucas horas de vida: "Ainda que naquela primeira sesso fosse Joan que se aproximava do fim da vida, ela me abriu os olhos para a profunda importncia dos bichos no nosso dia a dia, e para o valor de ter memrias tangveis desses animais." 


